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O enigma da obra de arte

Novamente, aproveito para postar uma discussão que se desdobrou a partir de uma pergunta de um orientando da pós-graduação em música. A questão foi formulada da seguinte maneira: “O objetivo de Martin Heidegger quanto a toda discussão sobre essência, técnica, origem, obra e arte não seria o resolver estes enigmas, mas “simplesmente” fruí-los, “vê-los” (AQT pg. 34 e 37, OOA §187 e §204)?”

Para efeito deste post, tratarei apenas das referências feitas ao ensaio A origem da obra de arte (OOA). O texto A questão da técnica (AQT) de Martin Heidegger não será abordado nesse post.

Vamos entender uma coisa antes: enigma que é resolvido deixa de ser enigma. A resolução do mistério (aquilo que todo enigma é) é algo perseguido pela filosofia ocidental, explicitamente, a Metafísica. Temos que convir, entretanto, que o real se apresenta repleto de mistérios. O próprio real é um mistério. A Metafísica se propôs através da representação conceitual resolver o mistério do real. No plano da ideia, do conceito, é possível resolver qualquer mistério, especialmente desde a Modernidade: 1) a partir de uma dúvida metódica, toma-se o real e o decompõe em partes, em seus elementos considerados mais simples possíveis e com isso o faz desaparecer pouco a pouco até que ele tome a forma abstrata do conceito. Nesse processo, analítico por excelência, não só o mistério desaparece, mas o próprio real. O concreto do real se transforma no abstrato da ideia. Por ser abstrata, a ideia comporta qualquer real, mas somente se ele for de-composto até desaparecer. Como diz Alberto Caeiro,

Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. (PESSOA, 1969, p. 231)

O próprio nome Metafísica (tà metà tà physikà – para além da física) consagra a substituição do real pela ideia do real, isto é, da unidade do real por sua solução. Solver quer dizer diluir, desintegrar. Esse é o papel dos solventes. Solver está presente de modo determinante na palavra resolver. Isso nos leva a 2) a solução do real, a resolução do mistério ou do enigma é uma decisão: tomar uma deliberação, decidir uma questão, solucionar. A ideia, o conceito arbitra, decide, determina como o real é representado. Representar é colocar outro no lugar de algo. No caso da Metafísica, substituir algo por seu conceito, o concreto pelo abstrato, o singular pelo universal.

Bem, o que isso quer dizer? Simples:

estar, por antecipação, instalado num corpo doutrinal, num sistema de conceitos já constituídos e dados, uma vez que com isso, por isso o conceito (i. é, as ciências, o saber) instaura o universal, ou seja, o homogêneo, o “objetivo” ou o mundo, no qual todos vêem a mesma coisa e no qual todos se instalam de maneira igual – isto é, objetivamente… – tal como nos instalamos num hábito, numa coisa feita, pronta, acabada, enfim, nas coisi-ficações. (FOGEL, 2007, p. 42).

Não é à toa que na Matemática, resolver uma equação é determinar os valores que, substituídos à incógnita, a transformam em identidade. A Metafísica da ideia busca a pura identidade do conceito. Resolver o real é solver seu mistério de identidade e diferença numa identidade total, totalizante e totalitária.

Dito isso, vamos agora entender o que Heidegger afinal diz com o §187 e o §204 de seu ensaio A origem da obra de arte.

§187 – As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que é a própria arte. Está longe a pretensão de resolver o enigma. Permanece a tarefa de ver o enigma. (HEIDEGGER, 2010, p. 201).

A arte, assim como o real, é também um enigma, um mistério. Digo assim como o real porque a obra de arte não é menos real que qualquer outra coisa. Este é mais um conceito sobre a arte e para a arte que foi criado pela Metafísica, especificamente pela Estética, a saber, de que a arte pertence ao âmbito da ficção por oposição ao real. Ser um enigma não faz da arte menos real. Ao contrário, cada obra funda-se como enigma justamente por ser ela mesma instauração do real. Para Heidegger, é descabida a pretensão de resolver o enigma que a arte é, sob pena de diluí-la, solvê-la numa pura abstração conceitual que a negligencia em sua plenitude de ser e sentido. Esta plenitude se dá apenas enquanto a obra permanece em sua unidade. Por isso,

permanece a tarefa de ver o enigma.

Esse ver, para Heidegger, é o saber.

Chama-se saber: o ter visto, no sentido amplo do ver, o qual significa: perceber o que se presentifica como um tal. (HEIDEGGER, 2010, §126).

Saber é ver o que se apresenta como um tal, isto é, como unidade, em sua unidade.

O modo com que Heidegger aborda a questão da arte se distancia radicalmente dos esforços analíticos da Metafísica. Com a análise não somente não há enigma, como também não há mais unidade. Não por acaso a análise possui esse nome. Provém de aná – negação e lyo – ligar. Em suma, analisar quer literalmente dizer des-ligar, de-compor, separar. Sem enigma, sem unidade e vice-versa. Uma coisa necessariamente leva a outra. Não é possível ver o enigma se a unidade é desfeita. O fato de permanecer a tarefa de ver o enigma, de sabê-lo enquanto tal, significa a preservação da unidade em sua irredutibilidade ao des-uno. Manoel de Barros nos ajuda a perceber isso de um outro modo:

Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore. (2010, p. 178)

O compreender metafísico exige o cálculo da unidade. Unidade é “o que se presentifica como um tal”. Mas a tarefa de pensar a arte, consiste em ver a unidade ou, nas palavras de Manoel de Barros, incorporá-la. Procurar “ser uma árvore” é experimentar a árvore como árvore, como a unidade que é, em sua presença e não como conceito de árvore. A arte, real, presente e já por isso, plena de sentido, não necessita de conceitos para compreendê-la, mas da experiência direta, i-mediata e singular com ela própria. Pois, não há conceito que subsista sem a experiência do e com o próprio real. Dessa presença singular e i-mediata Heidegger trata em A Origem da obra de arte e no §204 inicia com um esclarecimento:

§204 – Reflitamos até que ponto verdade como desvelamento do sendo nada mais diz do que presença do sendo como tal, quer dizer, ser” (HEIDEGGER, 2010, p. 217).

É que, saber é ver, perceber o que se presentifica como um tal, como unidade, como ser.

Ora, o que é, antes de tudo, é o Ser (HEIDEGGER, 1995, p. 24).

Eis aí o enigma, pois o ser só podemos mesmo incorporá-lo na medida que, com ele e por ele, fazemos a experiência i-mediata, isto é, não mediada do sentido dos entes. Não há formas de decompô-lo ou de analisá-lo, de reduzirmos seus componentes em partes mais simples e procedermos progressiva e linearmente à complexidade de sua compreensão, tal como Decartes em seu Discurso do Método. Afinal, o método parte do sujeito da razão e não do ser. Isso é especialmente importante se compreendermos que o desvelamento do sentido do ser não se dá exclusivamente no e com o sujeito, mas em tudo que é.

Claro que podemos submeter os entes, inclusive as obras, ao mesmo que fazemos com os minerais, os animais, os vegetais etc. Esta permanece, porém, uma ação duvidosa, pois não se chega à vigência do ser nos entes através de uma classificação ou do estabelecimento de suas propriedades. Se, conforme Heidegger aponta em A origem da obra de arte, não se chega à essência da mera coisa, uma pedra, por exemplo, simplesmente partindo-a ou examinando o seu núcleo, muito menos podemos proceder desse mesmo modo em relação ao ser. É o que explicita o §204 a respeito da Diferença Ontológica, um domínio no qual o pensamento toca o que ainda não pode ser exposto. E não pode porque o que apreendemos do ser é apenas o ente em sua unidade, o um como tal. Em todo ente, o ser se dá como tal um, mas ele mesmo se retira e se retrai, não sendo possível apreendê-lo, muito menos da maneira em que metafisicamente se considera o ente.

Desse modo, para Heidegger a arte não é tomada como uma área de realização cultural, nem como manifestação do Espírito. Não é proveniente da engenhosidade do sujeito, nem das relações culturais, mas no horizonte da pergunta pela essência do ser. Sendo a obra de arte o acontecimento da verdade em obra, a saber, o acontecer do desvelamento do ser na poiéisis,

Todo o ensaio A origem da obra de arte move-se conscientemente, ainda que sem o dizer, no caminho da pergunta pela essência do ser. A reflexão sobre isso, o que seja a arte, é determinada inteira e decididamente apenas a partir da pergunta sobre o ser. (HEIDEGGER, 2010, p. 219)

Na medida que a obra de arte desvela a presença do ser, pois realiza uma poiésis, isto é, a passagem do não ser para o ser (ver Platão, O Banquete 205b), da ocultação para a desocultação, a arte é a contraparte da physis, da Terra, para a realização do ser. O que é, antes de tudo, é o ser. Mas o ser não pode ser calculado por uma resposta adequada, pois ele mesmo se retrai. “Ser é o conceito mais universal” (HEIDEGGER, 1993, p. 28), e no entanto, “o conceito de ser é indefinível”, e ao mesmo tempo “é o conceito mais evidente por si mesmo” (idem, p. 29). Portanto, cabe ver o enigma da arte e não simplesmente fornecer respostas para ele.

Referências:

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Vol. I. Petrópolis: Vozes, 1993.

______. Sobre o humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

______. A origem da obra de arte. São Paulo: Edições 70, 2010.

PESSOA, Fernando. Obra poética. Volume único. 3ª Edição, 17ª reimpressão, 1999. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969.

FOGEL, Gilvan. O desaprendizado do símbolo. (A poética do ver imediato). In: Permanência e atualidade poética. Revista Tempo Brasileiro, 171, p. 39-51, out-dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.