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Para começar…

Uma tentativa de pensar a experiência com a música passa pelo que nela permanece impensado e que manifesta o inaugural, incapaz de ser medido e calculado através de um registro plenamente identificável e representável. O inaugural da origem dificilmente se deixa representar. Resiste ser apropriado simplesmente por um sistema de redução lógica e racional. O pensar a origem é sempre um pensar memorável. Na e pela memória das origens dá-se o pensar do que é digno de ser pensado.

“A memória do poetar pensante e do pensar poético é a memória original das origens originantes” (SOUZA, 2001/2).

Por isso, a experiência originária com a música não pode se dar simplesmente nos moldes do que um sujeito da razão faz com um objeto do conhecimento. Toda experiência com o inaugural é fundamentalmente diferente da aquisição e do acúmulo de conhecimentos a respeito de um objeto. Na unidade de música e homem ambos se convocam mutuamente numa co-respondência recíproca.

Apesar da separação dessa unidade implicar a destituição dessa experiência conjunta, estas e tantas outras instâncias de comum-unidade de sentido se desarticulam desde a prototípica separação do inteligível e do sensível, imposta pelo preponderância de uma experiência, puramente intelectiva, sobre outra, denominada sensível. Analogamente, formula-se a separação de homem e mundo, o predomínio daquele sobre este e o desdobrar-se e estender-se desse predomínio como estrutura válida e de validação para toda e qualquer realidade na relação modelar sujeito-objeto. Nessa relação, o modo de manifestação de sentido se baseia no sistema de representação. O real não mais deve ser inter-pretado, mas sim medido e calculado, sendo disposto numa e por uma representação do intelecto assegurando-o como algo sempre disponível (HEIDEGGER, 2001, p. 39-60).

Referências

HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2001.

SOUZA, Ronaldes de Melo e. A criatividade da memória. In: Prismas: historicidade e memória. Francisco Venceslau dos Santos (org.). Rio de Janeiro: Centro de Observação do Contemporâneo, Caetés, 2001/2, p. 31.