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Obra: efeito de um fazer?

Esse texto surgiu de uma questão apresentada por uma aluna a partir da leitura do texto Ciência e pensamento do sentido de Heidegger, p. 43, do livro Ensaios e conferências publicado pela Editora Vozes. A questão apresentada fazia referência às relações que o filósofo aponta entre diversas palavras-conceito: enérgeia, entelecheia, actio, operatio e claro, obra (do alemão Werk), sua raiz indo-européia uerg, efficere, effectus e por aí vai.

A referência a energia e não a enérgeia já cria alguns problemas que são justamente objeto de reflexão de Heidegger no texto em questão. A palavra é grega e tratá-la como energia (em português) dá margem a muitas confusões, fora aquelas advindas propriamente do uso conceitual que esse termo teve na tradição Ocidental. Trata-se não apenas de uma palavra grega qualquer, mas de um conceito. Por isso me referi a palavras-conceito. Como tal, foi introduzido por Aristóteles juntamente com outro, a dynamis. De acordo com Ferrater Mora (1964), estes são usualmente traduzidos por ato, ou atualidade, e potência.

Na primeira parte do seu texto, Heidegger fornece justamente um panorama de como os conceitos de teoria e do real foram pensados em diversos momentos. Claro que esse panorama apresenta um horizonte de reflexão no qual se relacionam ou se articulam outros conceitos fundamentais. É precisamente o que ocorre no trecho em questão. Heidegger explicita na p. 42 que “o real é o vigente”, aquilo que é levado a cabo ou a ser o que é através ou como resultado de uma operação. No início da p. 43 ele explica que a essa relação entre o vigente e o operar pertence também à noção da raiz indo-européia uerg, donde provém o alemão Werk e o grego érgon, isto é, obra. Dá-se a nítida relação com o operar. No português a palavra obra provém do latim opera.

Heidegger não é, no entanto, um historiador. Por isso, não se contenta em apenas fornecer um panorama histórico. É preciso pensá-lo e criticá-lo. Isso implica inclusive em ressalvar algumas questões da historiografia conceitual. Na acepção do real como o que é vigente e sua associação com o resultado de um operar, pode-se facilmente, pela via da lógica, estabelecer o nexo entre o operar e o real como sendo este uma consequência daquele. O real é o vigente porque é o resultado de uma operação. Apressadamente, compreende-se a característica desse operar como algo eficiente que conduz a um efeito. Heidegger adverte que não se trata disso, isto é, o real não é um efeito do operar porque

“o traço fundamental de ‘operar’, ‘wirken’, e de ‘obra’, ‘Werk’, não reside no efficere e no effectus mas em algo vir a des-encobrir-se e manter-se desencoberto”.

Vamos entender isso antes de prosseguirmos: operar (wirken em alemão) e obra (do alemão Werk) não possuem como traço ou característica fundamental o efficere e o effectus. O que é isso, efficere e effectus? Efficere é uma palavra latina, um verbo, presente ativo infinitivo de efficio. Não ajudou muito não é? Bem, então vamos lá: efficio provém do prefixo e adicionado à palavra facio. O prefixo e quer dizer “sair de” no sentido de provir de. É como em evidência, aquilo que provém da vidência ou da visão, ou seja, que está manifesto a partir da visão. Já a palavra facio significa isso mesmo: fazer. Então, efficere é realizar algo que provém de um fazer. Uma série de ações se relacionam com esse tipo de fazer: resolver, efetuar, executar, completar, realizar, formar, compor, causar a ocorrência, acarretar, produzir, portar, permitir, mostrar, provar, deduzir. Bem, nota-se que o campo que efficere abrange é muito vasto.

Effectus provém da mesma raiz, só que não é verbo, mas um particípio passado de efficere. Effectus é o feito, ou o provindo do fazer: resolvido, efetuado, executado, completado, realizado, formado, composto e assim por diante. Fica clara a relação de dependência entre efficere e effectus, tributária de uma compreensão de que o vigente é o feito, o provindo de um fazer, ou seja, seu efeito. Em outro texto, Sobre o Humanismo, Heidegger também aponta para essa questão:

“de há muito que ainda não se pensa, com bastante decisão, a Essência do agir. Só se conhece o agir como a produção de um efeito cuja efetividade se avalia por sua utilidade.” (Heidegger, 1995, p. 23).

Diante disso, retomemos a advertência de Heidegger, agora da seguinte maneira: o traço fundamental do operar não reside na relação entre o fazer e seu efeito. Não que essa relação inexista, nem que ela não seja, afinal de contas, uma característica do operar. Apenas não é este o traço fundamental, isto é, aquilo que funda, que desencadeia o operar. O que dá origem, o que desencadeia o operar, o fundamental no operar é que nele, algo vem a des-encobrir-se e manter-se no desencoberto. Por conseguinte, não somente o real é um operar em que nele o vigente vem à sua vigência, des-encobre-se e aí, como tal, se mantém, no desencoberto, mas a obra é esse lugar de acontecimento do desencobrimento da vigência. Esse é o motivo pelo qual Heidegger afirma que

“mesmo quando os gregos, a saber, Aristóteles, falam daquilo que os latinos chamaram de causa efficiens, eles nunca pensam em causa e efeito” (p. 43).

Claro que não, pois o traço fundamental, o que determina o operar não é a causa e o seu efeito, mas sim o des-encobrimento. Consequentemente, continua Heidegger,

“o que se per-faz num érgon é o que se leva à plenitude da vigência”.

Note-se bem, vamos passar para o “bom português”, se é que algo assim tem algum valor:

o que se per-faz na obra é o que se leva à plenitude da vigência.

Na mesma carta Sobre o Humanismo (p. 23-4) ele afirma que

“a  Essência do agir, no entanto, está em consumar. Cons-sumar quer dizer: conduzir uma coisa ao sumo, à plenitude de sua Essência. Levá-la a essa plenitude, producere.”

Dessa maneira, a essência do agir é produzir e não o operar. Isto ele já havia apresentado na p. 42 quando se refere ao crescimento e à vigência da physis como um fazer:

physis é thésis, a saber, a pro-posição de algo por si mesmo, no sentido de por em frente, de trazer à luz, de a-duzir e pro-duzir, de levá-lo à vigência.”

Assim, retornando à questão da obra e à discussão do operar não se caracterizar pela ação que produz efeito, mas sim pela ação que deixa, no des-encobrimento, vir a vigência ao desencoberto, a obra,

érgon é a vigência no sentido próprio e supremo da palavra. Somente, por isso, Aristóteles chama a vigência do que está em pleno vigor de sua propriedade, de enérgeia ou também de entelécheia, ou seja, o que se mantém na plenitude (de sua vigência)” (p. 43).

Então, para esclarecer, a leitura revitalizante de Aristóteles por Heidegger nos aponta para um diferença bastante sensível de enérgeia. Na tradição do pensamento ocidental, de algum modo, perdurou a noção do latim actio, do operar como fazer e seu efeito. Porém, na leitura heideggeriana, a ênfase consiste precisamente não o ato e seu efeito, mas sim no que é fundamental na enérgeia, o

“trazer para (her) o desencoberto, (…) levar para (vor) a vigência” (p. 43, §2).

Dois esclarecimentos a respeito desse parágrafo e que podem deixar o leitor confuso:

  1. Na citação acima, os prefixos do alemão entre parênteses – (her) e (vor) são consituintes da palavra alemã her-vor-bringen – trazer e levar à vigência (discussão sobre a physis na p. 42, §2). O problema é que na edição brasileira não aparece a palavra em alemão, então fica estranho quando na página seguinte menciona-se os tais prefixos.
  2. Na 2ª linha onde Heidegger diz “Nossa palavra ‘realidade’ só traduz adequadamente a palavra fundamental de Aristóteles para a vigência do vigente (entelécheia)…” há aí um erro na edição brasileira. Foi colocada a palavra entelécheia entre parênteses, mas no original alemão, e mesmo pelo sentido do que Heidegger diz, o termo correto é enérgeia. Do jeito que está na edição, fica um pouco confuso.

Para concluir, tomando essas explicações em consideração, vê-se por que Heidegger diz:

“desde o tempo posterior a Aristóteles, este significado de enérgeia, ficar e permanecer em obra, foi entulhado por outros significados” (p. 43).

Daí em diante, no seu texto, o filósofo passa a apresentar tais significados e, especialmente, as consequências para a compreensão do que é o real.

Referências

FERRATER MORA, J. Diccionario de Filosofía. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1964.

HEIDEGGER, M. Sobre o humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

_____.  Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2001.