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Professor dos Cursos de Graduação em Música e Direção e Produção de Arte, Curso de Pós-Graduação em Música Escola de Música e Artes Cênicas – Universidade Federal de Goiás

XIV SEMPEM UFG + USP

Reblog do post de Marcel Cobussen (Leiden University, Holanda) sobre sua participação no XIV SEMPEM UFG

Thinking Sounds

End of September, beginning of October I will be doing several “things” in Brazil, first at the Universidade Federal de Goiás (UFG) and then at the Universidade de São Paulo (USP). At the UFG I will give a keynote lecture on Artistic Research, conduct a 3-day course on improvisation, and participate in a round table discussion on the role, position, and function of music in contemporary society. At the USP I will chair a seminar on improvisation, complexity and singularity and a seminar on methodologies of Artistic Research. Besides I will join the Orquestra Errante both as a pianist and as a conductor.

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O enigma da obra de arte

Novamente, aproveito para postar uma discussão que se desdobrou a partir de uma pergunta de um orientando da pós-graduação em música. A questão foi formulada da seguinte maneira: “O objetivo de Martin Heidegger quanto a toda discussão sobre essência, técnica, origem, obra e arte não seria o resolver estes enigmas, mas “simplesmente” fruí-los, “vê-los” (AQT pg. 34 e 37, OOA §187 e §204)?”

Para efeito deste post, tratarei apenas das referências feitas ao ensaio A origem da obra de arte (OOA). O texto A questão da técnica (AQT) de Martin Heidegger não será abordado nesse post.

Vamos entender uma coisa antes: enigma que é resolvido deixa de ser enigma. A resolução do mistério (aquilo que todo enigma é) é algo perseguido pela filosofia ocidental, explicitamente, a Metafísica. Temos que convir, entretanto, que o real se apresenta repleto de mistérios. O próprio real é um mistério. A Metafísica se propôs através da representação conceitual resolver o mistério do real. No plano da ideia, do conceito, é possível resolver qualquer mistério, especialmente desde a Modernidade: 1) a partir de uma dúvida metódica, toma-se o real e o decompõe em partes, em seus elementos considerados mais simples possíveis e com isso o faz desaparecer pouco a pouco até que ele tome a forma abstrata do conceito. Nesse processo, analítico por excelência, não só o mistério desaparece, mas o próprio real. O concreto do real se transforma no abstrato da ideia. Por ser abstrata, a ideia comporta qualquer real, mas somente se ele for de-composto até desaparecer. Como diz Alberto Caeiro,

Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. (PESSOA, 1969, p. 231)

O próprio nome Metafísica (tà metà tà physikà – para além da física) consagra a substituição do real pela ideia do real, isto é, da unidade do real por sua solução. Solver quer dizer diluir, desintegrar. Esse é o papel dos solventes. Solver está presente de modo determinante na palavra resolver. Isso nos leva a 2) a solução do real, a resolução do mistério ou do enigma é uma decisão: tomar uma deliberação, decidir uma questão, solucionar. A ideia, o conceito arbitra, decide, determina como o real é representado. Representar é colocar outro no lugar de algo. No caso da Metafísica, substituir algo por seu conceito, o concreto pelo abstrato, o singular pelo universal.

Bem, o que isso quer dizer? Simples:

estar, por antecipação, instalado num corpo doutrinal, num sistema de conceitos já constituídos e dados, uma vez que com isso, por isso o conceito (i. é, as ciências, o saber) instaura o universal, ou seja, o homogêneo, o “objetivo” ou o mundo, no qual todos vêem a mesma coisa e no qual todos se instalam de maneira igual – isto é, objetivamente… – tal como nos instalamos num hábito, numa coisa feita, pronta, acabada, enfim, nas coisi-ficações. (FOGEL, 2007, p. 42).

Não é à toa que na Matemática, resolver uma equação é determinar os valores que, substituídos à incógnita, a transformam em identidade. A Metafísica da ideia busca a pura identidade do conceito. Resolver o real é solver seu mistério de identidade e diferença numa identidade total, totalizante e totalitária.

Dito isso, vamos agora entender o que Heidegger afinal diz com o §187 e o §204 de seu ensaio A origem da obra de arte.

§187 – As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que é a própria arte. Está longe a pretensão de resolver o enigma. Permanece a tarefa de ver o enigma. (HEIDEGGER, 2010, p. 201).

A arte, assim como o real, é também um enigma, um mistério. Digo assim como o real porque a obra de arte não é menos real que qualquer outra coisa. Este é mais um conceito sobre a arte e para a arte que foi criado pela Metafísica, especificamente pela Estética, a saber, de que a arte pertence ao âmbito da ficção por oposição ao real. Ser um enigma não faz da arte menos real. Ao contrário, cada obra funda-se como enigma justamente por ser ela mesma instauração do real. Para Heidegger, é descabida a pretensão de resolver o enigma que a arte é, sob pena de diluí-la, solvê-la numa pura abstração conceitual que a negligencia em sua plenitude de ser e sentido. Esta plenitude se dá apenas enquanto a obra permanece em sua unidade. Por isso,

permanece a tarefa de ver o enigma.

Esse ver, para Heidegger, é o saber.

Chama-se saber: o ter visto, no sentido amplo do ver, o qual significa: perceber o que se presentifica como um tal. (HEIDEGGER, 2010, §126).

Saber é ver o que se apresenta como um tal, isto é, como unidade, em sua unidade.

O modo com que Heidegger aborda a questão da arte se distancia radicalmente dos esforços analíticos da Metafísica. Com a análise não somente não há enigma, como também não há mais unidade. Não por acaso a análise possui esse nome. Provém de aná – negação e lyo – ligar. Em suma, analisar quer literalmente dizer des-ligar, de-compor, separar. Sem enigma, sem unidade e vice-versa. Uma coisa necessariamente leva a outra. Não é possível ver o enigma se a unidade é desfeita. O fato de permanecer a tarefa de ver o enigma, de sabê-lo enquanto tal, significa a preservação da unidade em sua irredutibilidade ao des-uno. Manoel de Barros nos ajuda a perceber isso de um outro modo:

Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore. (2010, p. 178)

O compreender metafísico exige o cálculo da unidade. Unidade é “o que se presentifica como um tal”. Mas a tarefa de pensar a arte, consiste em ver a unidade ou, nas palavras de Manoel de Barros, incorporá-la. Procurar “ser uma árvore” é experimentar a árvore como árvore, como a unidade que é, em sua presença e não como conceito de árvore. A arte, real, presente e já por isso, plena de sentido, não necessita de conceitos para compreendê-la, mas da experiência direta, i-mediata e singular com ela própria. Pois, não há conceito que subsista sem a experiência do e com o próprio real. Dessa presença singular e i-mediata Heidegger trata em A Origem da obra de arte e no §204 inicia com um esclarecimento:

§204 – Reflitamos até que ponto verdade como desvelamento do sendo nada mais diz do que presença do sendo como tal, quer dizer, ser” (HEIDEGGER, 2010, p. 217).

É que, saber é ver, perceber o que se presentifica como um tal, como unidade, como ser.

Ora, o que é, antes de tudo, é o Ser (HEIDEGGER, 1995, p. 24).

Eis aí o enigma, pois o ser só podemos mesmo incorporá-lo na medida que, com ele e por ele, fazemos a experiência i-mediata, isto é, não mediada do sentido dos entes. Não há formas de decompô-lo ou de analisá-lo, de reduzirmos seus componentes em partes mais simples e procedermos progressiva e linearmente à complexidade de sua compreensão, tal como Decartes em seu Discurso do Método. Afinal, o método parte do sujeito da razão e não do ser. Isso é especialmente importante se compreendermos que o desvelamento do sentido do ser não se dá exclusivamente no e com o sujeito, mas em tudo que é.

Claro que podemos submeter os entes, inclusive as obras, ao mesmo que fazemos com os minerais, os animais, os vegetais etc. Esta permanece, porém, uma ação duvidosa, pois não se chega à vigência do ser nos entes através de uma classificação ou do estabelecimento de suas propriedades. Se, conforme Heidegger aponta em A origem da obra de arte, não se chega à essência da mera coisa, uma pedra, por exemplo, simplesmente partindo-a ou examinando o seu núcleo, muito menos podemos proceder desse mesmo modo em relação ao ser. É o que explicita o §204 a respeito da Diferença Ontológica, um domínio no qual o pensamento toca o que ainda não pode ser exposto. E não pode porque o que apreendemos do ser é apenas o ente em sua unidade, o um como tal. Em todo ente, o ser se dá como tal um, mas ele mesmo se retira e se retrai, não sendo possível apreendê-lo, muito menos da maneira em que metafisicamente se considera o ente.

Desse modo, para Heidegger a arte não é tomada como uma área de realização cultural, nem como manifestação do Espírito. Não é proveniente da engenhosidade do sujeito, nem das relações culturais, mas no horizonte da pergunta pela essência do ser. Sendo a obra de arte o acontecimento da verdade em obra, a saber, o acontecer do desvelamento do ser na poiéisis,

Todo o ensaio A origem da obra de arte move-se conscientemente, ainda que sem o dizer, no caminho da pergunta pela essência do ser. A reflexão sobre isso, o que seja a arte, é determinada inteira e decididamente apenas a partir da pergunta sobre o ser. (HEIDEGGER, 2010, p. 219)

Na medida que a obra de arte desvela a presença do ser, pois realiza uma poiésis, isto é, a passagem do não ser para o ser (ver Platão, O Banquete 205b), da ocultação para a desocultação, a arte é a contraparte da physis, da Terra, para a realização do ser. O que é, antes de tudo, é o ser. Mas o ser não pode ser calculado por uma resposta adequada, pois ele mesmo se retrai. “Ser é o conceito mais universal” (HEIDEGGER, 1993, p. 28), e no entanto, “o conceito de ser é indefinível”, e ao mesmo tempo “é o conceito mais evidente por si mesmo” (idem, p. 29). Portanto, cabe ver o enigma da arte e não simplesmente fornecer respostas para ele.

Referências:

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Vol. I. Petrópolis: Vozes, 1993.

______. Sobre o humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

______. A origem da obra de arte. São Paulo: Edições 70, 2010.

PESSOA, Fernando. Obra poética. Volume único. 3ª Edição, 17ª reimpressão, 1999. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969.

FOGEL, Gilvan. O desaprendizado do símbolo. (A poética do ver imediato). In: Permanência e atualidade poética. Revista Tempo Brasileiro, 171, p. 39-51, out-dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.

Truth, Freedom and the Concern for Man. Heidegger and Krishnamurti.

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Introduction

The goal of this paper is to discuss Martin Heideggers’ explanation of Being and his thoughts on humanism,as expressed in Letter on Humanism. I will discuss Heidegger’s ideas in relation to Eastern philosopher, Jiddu Krishnamurti. Krishnamurti, like Heidegger, finds truth to be attainable, however, thinks that methodology and traditional ways of thinking, distract from the truth, ultimately causing conflict. For Heidegger, the methodology that distracts us from the truth of Being is traditional metaphysics, grounded in logic. Both thinkers, focus on truth, freedom, and Being[i]. Although it is not the focus of the paper, but an important mentionable, there is a fundamental difference between Heideggerian philosophy and the teachings of Krishnamurti. Krishnamurti focuses on truth, as an understanding of the self. This is done for the betterment of the human being, and human sake. Krishnamurti did not intend, or set out to do philosophy. He ultimately…

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Obra: efeito de um fazer?

Esse texto surgiu de uma questão apresentada por uma aluna a partir da leitura do texto Ciência e pensamento do sentido de Heidegger, p. 43, do livro Ensaios e conferências publicado pela Editora Vozes. A questão apresentada fazia referência às relações que o filósofo aponta entre diversas palavras-conceito: enérgeia, entelecheia, actio, operatio e claro, obra (do alemão Werk), sua raiz indo-européia uerg, efficere, effectus e por aí vai.

A referência a energia e não a enérgeia já cria alguns problemas que são justamente objeto de reflexão de Heidegger no texto em questão. A palavra é grega e tratá-la como energia (em português) dá margem a muitas confusões, fora aquelas advindas propriamente do uso conceitual que esse termo teve na tradição Ocidental. Trata-se não apenas de uma palavra grega qualquer, mas de um conceito. Por isso me referi a palavras-conceito. Como tal, foi introduzido por Aristóteles juntamente com outro, a dynamis. De acordo com Ferrater Mora (1964), estes são usualmente traduzidos por ato, ou atualidade, e potência.

Na primeira parte do seu texto, Heidegger fornece justamente um panorama de como os conceitos de teoria e do real foram pensados em diversos momentos. Claro que esse panorama apresenta um horizonte de reflexão no qual se relacionam ou se articulam outros conceitos fundamentais. É precisamente o que ocorre no trecho em questão. Heidegger explicita na p. 42 que “o real é o vigente”, aquilo que é levado a cabo ou a ser o que é através ou como resultado de uma operação. No início da p. 43 ele explica que a essa relação entre o vigente e o operar pertence também à noção da raiz indo-européia uerg, donde provém o alemão Werk e o grego érgon, isto é, obra. Dá-se a nítida relação com o operar. No português a palavra obra provém do latim opera.

Heidegger não é, no entanto, um historiador. Por isso, não se contenta em apenas fornecer um panorama histórico. É preciso pensá-lo e criticá-lo. Isso implica inclusive em ressalvar algumas questões da historiografia conceitual. Na acepção do real como o que é vigente e sua associação com o resultado de um operar, pode-se facilmente, pela via da lógica, estabelecer o nexo entre o operar e o real como sendo este uma consequência daquele. O real é o vigente porque é o resultado de uma operação. Apressadamente, compreende-se a característica desse operar como algo eficiente que conduz a um efeito. Heidegger adverte que não se trata disso, isto é, o real não é um efeito do operar porque

“o traço fundamental de ‘operar’, ‘wirken’, e de ‘obra’, ‘Werk’, não reside no efficere e no effectus mas em algo vir a des-encobrir-se e manter-se desencoberto”.

Vamos entender isso antes de prosseguirmos: operar (wirken em alemão) e obra (do alemão Werk) não possuem como traço ou característica fundamental o efficere e o effectus. O que é isso, efficere e effectus? Efficere é uma palavra latina, um verbo, presente ativo infinitivo de efficio. Não ajudou muito não é? Bem, então vamos lá: efficio provém do prefixo e adicionado à palavra facio. O prefixo e quer dizer “sair de” no sentido de provir de. É como em evidência, aquilo que provém da vidência ou da visão, ou seja, que está manifesto a partir da visão. Já a palavra facio significa isso mesmo: fazer. Então, efficere é realizar algo que provém de um fazer. Uma série de ações se relacionam com esse tipo de fazer: resolver, efetuar, executar, completar, realizar, formar, compor, causar a ocorrência, acarretar, produzir, portar, permitir, mostrar, provar, deduzir. Bem, nota-se que o campo que efficere abrange é muito vasto.

Effectus provém da mesma raiz, só que não é verbo, mas um particípio passado de efficere. Effectus é o feito, ou o provindo do fazer: resolvido, efetuado, executado, completado, realizado, formado, composto e assim por diante. Fica clara a relação de dependência entre efficere e effectus, tributária de uma compreensão de que o vigente é o feito, o provindo de um fazer, ou seja, seu efeito. Em outro texto, Sobre o Humanismo, Heidegger também aponta para essa questão:

“de há muito que ainda não se pensa, com bastante decisão, a Essência do agir. Só se conhece o agir como a produção de um efeito cuja efetividade se avalia por sua utilidade.” (Heidegger, 1995, p. 23).

Diante disso, retomemos a advertência de Heidegger, agora da seguinte maneira: o traço fundamental do operar não reside na relação entre o fazer e seu efeito. Não que essa relação inexista, nem que ela não seja, afinal de contas, uma característica do operar. Apenas não é este o traço fundamental, isto é, aquilo que funda, que desencadeia o operar. O que dá origem, o que desencadeia o operar, o fundamental no operar é que nele, algo vem a des-encobrir-se e manter-se no desencoberto. Por conseguinte, não somente o real é um operar em que nele o vigente vem à sua vigência, des-encobre-se e aí, como tal, se mantém, no desencoberto, mas a obra é esse lugar de acontecimento do desencobrimento da vigência. Esse é o motivo pelo qual Heidegger afirma que

“mesmo quando os gregos, a saber, Aristóteles, falam daquilo que os latinos chamaram de causa efficiens, eles nunca pensam em causa e efeito” (p. 43).

Claro que não, pois o traço fundamental, o que determina o operar não é a causa e o seu efeito, mas sim o des-encobrimento. Consequentemente, continua Heidegger,

“o que se per-faz num érgon é o que se leva à plenitude da vigência”.

Note-se bem, vamos passar para o “bom português”, se é que algo assim tem algum valor:

o que se per-faz na obra é o que se leva à plenitude da vigência.

Na mesma carta Sobre o Humanismo (p. 23-4) ele afirma que

“a  Essência do agir, no entanto, está em consumar. Cons-sumar quer dizer: conduzir uma coisa ao sumo, à plenitude de sua Essência. Levá-la a essa plenitude, producere.”

Dessa maneira, a essência do agir é produzir e não o operar. Isto ele já havia apresentado na p. 42 quando se refere ao crescimento e à vigência da physis como um fazer:

physis é thésis, a saber, a pro-posição de algo por si mesmo, no sentido de por em frente, de trazer à luz, de a-duzir e pro-duzir, de levá-lo à vigência.”

Assim, retornando à questão da obra e à discussão do operar não se caracterizar pela ação que produz efeito, mas sim pela ação que deixa, no des-encobrimento, vir a vigência ao desencoberto, a obra,

érgon é a vigência no sentido próprio e supremo da palavra. Somente, por isso, Aristóteles chama a vigência do que está em pleno vigor de sua propriedade, de enérgeia ou também de entelécheia, ou seja, o que se mantém na plenitude (de sua vigência)” (p. 43).

Então, para esclarecer, a leitura revitalizante de Aristóteles por Heidegger nos aponta para um diferença bastante sensível de enérgeia. Na tradição do pensamento ocidental, de algum modo, perdurou a noção do latim actio, do operar como fazer e seu efeito. Porém, na leitura heideggeriana, a ênfase consiste precisamente não o ato e seu efeito, mas sim no que é fundamental na enérgeia, o

“trazer para (her) o desencoberto, (…) levar para (vor) a vigência” (p. 43, §2).

Dois esclarecimentos a respeito desse parágrafo e que podem deixar o leitor confuso:

  1. Na citação acima, os prefixos do alemão entre parênteses – (her) e (vor) são consituintes da palavra alemã her-vor-bringen – trazer e levar à vigência (discussão sobre a physis na p. 42, §2). O problema é que na edição brasileira não aparece a palavra em alemão, então fica estranho quando na página seguinte menciona-se os tais prefixos.
  2. Na 2ª linha onde Heidegger diz “Nossa palavra ‘realidade’ só traduz adequadamente a palavra fundamental de Aristóteles para a vigência do vigente (entelécheia)…” há aí um erro na edição brasileira. Foi colocada a palavra entelécheia entre parênteses, mas no original alemão, e mesmo pelo sentido do que Heidegger diz, o termo correto é enérgeia. Do jeito que está na edição, fica um pouco confuso.

Para concluir, tomando essas explicações em consideração, vê-se por que Heidegger diz:

“desde o tempo posterior a Aristóteles, este significado de enérgeia, ficar e permanecer em obra, foi entulhado por outros significados” (p. 43).

Daí em diante, no seu texto, o filósofo passa a apresentar tais significados e, especialmente, as consequências para a compreensão do que é o real.

Referências

FERRATER MORA, J. Diccionario de Filosofía. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1964.

HEIDEGGER, M. Sobre o humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

_____.  Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2001.

XIV SEMPEM

Vem aí o XIV Seminário Nacional de Pesquisa em Música promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Música da UFG. A jornada acadêmica será realizada entre os dias 29 de setembro e 01 de outubro de 2014 na Escola de Música e Artes Cênicas. A programação, além de comunicações orais e sessões de pôsteres sobre diversos temas de pesquisa em música, contará ainda com convidados nacionais e internacionais, mini-cursos, palestras e conferências, mesas redondas e, como não poderia deixar de ser em qualquer atividade cujo foco é a Música, concertos e apresentações artísticas.

Dentre os convidados internacionais, Marcel Cobussen, da Universidade de Leiden, Holanda, cujas especialidades abrangem da pesquisa artística à improvisação, entre outras. A chamada de trabalhos e propostas artísticas já está aberta e pode ser acessada através do site sempemufg.weebly.com.

O tema do XIV SEMPEM é abrangente e de interesse de toda a comunidade acadêmica musical:

O FAZER MUSICAL CONTEMPORÂNEO – Metodologias, Tecnologias, Inovações.
A Pesquisa Artística e sua presença no universo acadêmico: produção, produtividade e produtivismo.

As áreas temáticas encontram-se divididas em:

  1. Performance musical na contemporaneidade, novas tecnologias e inovações.
  2. Cultura, sociedade e o fazer musical contemporâneo
  3. Metodologias, tecnologias e inovações em educação musical e saúde
  4. Pesquisa em arte e pesquisa artística: questões da produção do conhecimento artístico e do conhecimento científico, convergências, divergências e complementaridade.

O tema geral do Seminário centra-se no fazer musical contemporâneo e suas relações com a produção de conhecimento, seja sob a perspectiva de suas metodologias, o emprego de diferentes tecnologias e inovações, seja sob o ponto de vista da criação musical e o papel da pesquisa artística, sua presença no universo acadêmico. Urge a discussão e reflexão sobre as relações entre o conhecimento artístico musical e o conhecimento científico, suas similaridades e convergências, mas também suas particularidades, divergências e mesmo sua complementaridade. O campo de reflexão sobre o assunto é vasto e suas implicações, profundas, especialmente no que se refere a avaliação do conhecimento por parte dos pares e das agências de fomento. Dessa forma, algumas questões que fazem parte do debate são: a presença da música e das artes na academia, suas contribuições, sua articulação com o conhecimento científico, as relações que estabelece com a produção do conhecimento, os critérios de avaliação etc. Nesse sentido, o XIV SEMPEM aceitará propostas tanto de trabalhos de pesquisa em andamento ou concluídos, relato de experiências, como também propostas de apresentações artísticas a serem realizadas no decorrer do evento.

Para começar…

Uma tentativa de pensar a experiência com a música passa pelo que nela permanece impensado e que manifesta o inaugural, incapaz de ser medido e calculado através de um registro plenamente identificável e representável. O inaugural da origem dificilmente se deixa representar. Resiste ser apropriado simplesmente por um sistema de redução lógica e racional. O pensar a origem é sempre um pensar memorável. Na e pela memória das origens dá-se o pensar do que é digno de ser pensado.

“A memória do poetar pensante e do pensar poético é a memória original das origens originantes” (SOUZA, 2001/2).

Por isso, a experiência originária com a música não pode se dar simplesmente nos moldes do que um sujeito da razão faz com um objeto do conhecimento. Toda experiência com o inaugural é fundamentalmente diferente da aquisição e do acúmulo de conhecimentos a respeito de um objeto. Na unidade de música e homem ambos se convocam mutuamente numa co-respondência recíproca.

Apesar da separação dessa unidade implicar a destituição dessa experiência conjunta, estas e tantas outras instâncias de comum-unidade de sentido se desarticulam desde a prototípica separação do inteligível e do sensível, imposta pelo preponderância de uma experiência, puramente intelectiva, sobre outra, denominada sensível. Analogamente, formula-se a separação de homem e mundo, o predomínio daquele sobre este e o desdobrar-se e estender-se desse predomínio como estrutura válida e de validação para toda e qualquer realidade na relação modelar sujeito-objeto. Nessa relação, o modo de manifestação de sentido se baseia no sistema de representação. O real não mais deve ser inter-pretado, mas sim medido e calculado, sendo disposto numa e por uma representação do intelecto assegurando-o como algo sempre disponível (HEIDEGGER, 2001, p. 39-60).

Referências

HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2001.

SOUZA, Ronaldes de Melo e. A criatividade da memória. In: Prismas: historicidade e memória. Francisco Venceslau dos Santos (org.). Rio de Janeiro: Centro de Observação do Contemporâneo, Caetés, 2001/2, p. 31.